segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A ILHA DE BROCOIÓ – A ilha dos sussurros!

 

Gustavo Valente

 

✞A Ilha de Brocoió no Rio de Janeiro✞

 

A Ilha de Brocoió é uma das ilhas que formam o arquipélago de Paquetá, presente na capital fluminense. Também formam esse arquipélago as ilhas Paquetá, Pancariba, das Folhas, Nhaquetá, Viraponga, Tapuamas de Fora, Tapuamas de Dentro, Casa de Pedras, do Ferro, Redonda, Comprida, do Manguinho, Jurubaíba, Braço Forte, Itapacis e dos Lobos. Ela foi descoberta pelo francês André Thevet, durante a expedição batizada de “Villegagnon”, em 1555. Durante o período colonial, o local foi usando para produção de uma mistura de cal com óleo de baleia, que servia como matéria prima das edificações da época.


Ilha de Brocoió - RJ

 

Até 1930, a Ilha de Brocoió pertenceu à Maria Albertina Saraiva de Souza, Condessa de São Tiago de Lobão e proprietária da “Rio de Janeiro City Improvements”, uma empresa voltada ao desenvolvimento da infraestrutura do Rio de Janeiro. Mas em 1930, o milionário Octávio Guile, dono do Copacabana Palace, tomou posse daquelas terras e foi o principal responsável pela urbanização e aterramento da ilha, transformando as duas ilhotas que a formavam originalmente em uma única ilha de 200.000 m2. A mansão estilo europeu que ele construiu, sob autoria do arquiteto francês Joseph Gire (o mesmo que projetou o Copacabana Palace), possui quatro pavimentos e sete quartos. É decorada com telhas francesas e mansardas, pisos de mármore português, lustres do estilo art déco, mosaicos árabes e banheiras/pias esculpidas em peças únicas de mármore lioz amarelado.

 

Em 1944, sob a gestão de Henrique Dodsworth, toda a ilha foi adquirida pelo governo federal por 6 milhões de cruzeiros, se transformando em patrimônio público. Quando a capital passou a ser Brasilía, na década de 60, a administração do local passou a cargo do governo estadual do Rio de Janeiro. Com isso ela e passou a ser considerada a na residência de praia do governador fluminense. Atualmente a ilha não é aberta a visitação, só podendo ser acessada com autorização.


Mansão da Ilha de Brocoió

 

Dizem que quando os europeus chegarem à ilha, alguns indígenas da tribo dos Tamoios habitavam aquela terra. Algumas fontes afirmam que a tribo que habitava o local era a dos Tupinambás. Entretanto, “Tupinambás” diz respeito a um conjunto de distintas tribos que tinham o idioma em comum. Então todos Tamoios são Tupinambás, mas nem todos Tupinambás são Tamoios! Seguindo a temática de terror do blog, o que nos importa são os amedrontadores costumes que esses indígenas praticavam na Ilha de Brocoió. 

 

 

✞Os rituais dos Tamoios✞

 

Os Tamoios eram uma tribo indígena que reconhecidamente tinham a prática de realizar o canibalismo. Como em outras tribos indígenas canibais, os Tamoios acreditavam que ao se alimentar de uma pessoa, suas qualidades seriam absorvidas e poderiam ser usadas ao seu benefício. Os Tamoios também usavam a Ilha de Brocoió com outro intuito. A ilha era usada como uma espécie de prisão e local de descarte de doentes. Índios rebeldes que quebravam a regra de conduta da tribo eram levados até a ilha por uma canoa e mantidos presos ali até morrerem. Além disso, índios que apresentavam alguma doença incurável ou que tinham alguma deficiência eram abandonados lá pra morrer. De acordo com o artigo escrito por Hedjan Costa da Silva, “quando um índio se rebelava ou ia contra a autoridade de um chefe tribal era levado para a Ilha do Brocoió. Na época a ilha era na verdade uma ilhota dupla, ligada por um braço de areia. Não era um exílio com tempo para terminar. O índio rebelde que recebia sua passagem para lá ia permanecer no tal local até morrer. Eram conduzidos em longas canoas através da Baía, em direção ao seu destino”. Na época da escravidão, a ilha também foi usada como um local de quarentena dos escravos vindos da África.

 

Com tanta barbárie acontecendo naquele local, era óbvio que alguns presenciariam alguns fenômenos inexplicáveis ali. Alguns moradores da Ilha de Paquetá afirmam que durante a noite, os espíritos dos índios que morreram na ilha voltam do além e vagam pelo local, sendo possível ouvir choros, soluços, sussurros, gemidos e até mesmo gritos de socorro. Não é atoa que o termo “brocoió” deriva de “borocoió” e “boré-coyá”, que do tupi-guarani significa sussurro/sussurrante.

 

Rituais indígenas (canibalismo)


 

✞Como visitar a ilha?✞

 

Muitos governantes prometeram abrir a ilha para visitação, mas isso nunca se concretizou. Em 2016, sua administração foi colocada a cargo de um órgão estadual chamado RioPrevidência. Com um gasto de conservação anual de 50 mil reais, o governo decidiu a colocar a ilha a venda por 45 milhões de reais. Mas o valor foi considerado acima da realidade do mercado imobiliário, devido a quantidades de obras que a ilha carece, bem como por suas águas serem muito poluídas. Em 2019, o governador Wilson Witzel transferiu a responsabilidade da ilha para a Secretaria de Estado da Casa Civil e Governança.

 

Como já ressaltado, a visitação à ilha está fechada e para acessa-la é preciso da autorização do governo estadual. O acesso marítimo está desativado e a única forma de chegar ao local é por helicóptero. Mesmo não sendo possível chegar até a ilha, é possível chegar bem perto dela. Algumas praias da Ilha de Paquetá ficam apenas a 300 metros de distância dela. Para chegar até a Ilha de Paquetá é possível pegar uma balsa na Praça XV de Novembro no centro do Rio de Janeiro. Chegando a ilha, basta seguir até a Praia da Moreninha para ter uma visão de frente de toda Ilha de Brocoió.

 

Ilha de Paquetá (cima) e Ilha de Brocoió (baixo)


 

✞Referências✞

 

Diário do Rio à https://cutt.ly/GfnR2Q2

Histórias Contadas Por Aí à https://cutt.ly/QfmutNC

Matéria de Pesadelo à https://cutt.ly/lfQ4Sqr

Revista do Villa à https://cutt.ly/FfE5a9q

 

 

domingo, 25 de julho de 2021

A CASA ASSOMBRADA DO BAIRRO OTÁVIO BONFIM – O Poltergeist de Fortaleza!

 Gustavo Valente

 

✞ Jornal “O Povo”✞

 

O “O Povo” é o mais antigo e tradicional jornal da capital cearense. Fundando em 1928, ele já retratou diversos temas diferentes em suas matérias. O que será abordado nesse texto é justamente uma matéria publicada no “O Povo”, mais especificamente em 30 de maio de 1934.

 

O título da matéria alarmava sobre uma provável manifestação sobrenatural que estava acontecendo em Fortaleza: “Uma casa mal assombrada no Otávio Bomfim – As visagens continuam”.



 

 

✞ A casa mal assombrada✞

 

A matéria abordava o fato que a publicação do dia anterior sobre a fatídica casa tinha causado muita comoção popular, fazendo com que vários curiosos fossem até o local para tentar presenciar algum fenômeno. Apesar da matéria de 30 de maio ser encontrada na íntegra na internet, a matéria do “dia anterior” citada no texto não é encontrada em local algum. Então não sabemos a natureza do que foi publicado anteriormente, que foi capaz de despertar tanto interesse dos leitores.

 

A reportagem informa que a casa em questão era a de número 301, mas sem revelar qual o nome da rua. De acordo com algumas testemunhas, ela se situava próxima à Avenida Domingos Olímpio. Seu dono era conhecido como João Escóssio. Curiosos que se dirigiram até o local reportaram ter presenciado manifestações como cadeiras flutuando com as pernas para o alto. Alguns diziam ainda que Maria Águeda, uma menina que morava na casa, foi alvejada repetidas vezes por objetos da casa, que eram arremessados por algum “espírito louco”.

 

Por fim, é relatado também que Maria Águeda foi submetida a uma sessão espírita durante altas horas da noite, mas sem entrar em muitos detalhes. O proprietário anterior a João Escóssio relatou que mudou daquela casa, pois durante as noites a família não conseguia dormir, dado a quantidade de batidas e ruídos misteriosos que aconteciam no local.

 

 

Bairro Otávio Bonfim, Fortaleza - CE


✞Desfecho e explicações✞

 

O desfecho desse caso ainda permanece em aberto. Não existe nenhuma outra informação, de forma pública, de como se sucederam os fenômenos naquele local. Mas como todo Poltergeist, provavelmente aqueles efeitos foram apenas um efeito temporário de Maria Águeda estar entrando na puberdade. De acordo com estudos parapsicológicos de Padre Quevedo, a maioria dos casos de Poltergeist se relaciona com a presença de adolescentes do sexo feminino na casa. Apesar de a puberdade parecer ser um fator desencadeante dessas perturbações parafísicas, o mecanismo pelo qual isso se dá ainda não é bem esclarecido, fazendo com que essas ocorrências ainda sejam abordadas dentro da área da parapsicologia.

 

 

✞Referências✞

 

O Povo à https://cutt.ly/Dfv8Lxj / https://cutt.ly/OfbEQpA

domingo, 13 de junho de 2021

A RUA DO FANTASMA – Assombração da madrugada de Blumenau!

 

Gustavo Valente

 

✞A tradicional Rua Ângelo Dias✞

 

O município de Blumenau, em Santa Catarina, tem uma rica e diversificada história. Além disso, ela é cercada de lendas e mistérios. Uma dessas estórias aconteceu no centro de Blumenau, mais especificamente na Rua Ângelo Dias. Ângelo Dias foi um importante canoeiro da região que transportava passageiros pelo Rio Itajaí-Açu. Ele chegou até mesmo transportar figuras que foram importantes na construção de Blumenau, como o Dr. Blumenau e seu sócio, Ferdinand Hackradt. A rua batizada com seu nome foi a primeira a receber uma farmácia e os Correios naquele município. Hoje em dia, essa é uma movimentada via com várias lojas comerciais, consultórios e prédios. O hotel mais antigo da cidade se encontra ali, bem na esquina com a Rua Dr. Luiz de Freitas Melr. Apesar da grande importância histórica e cultura, aquele local é assombrado por um fantasma há anos, fato que poucos dos transeuntes que a frequentam cotidianamente tem ideia.

 



 

✞Um fantasma assombra o local✞

 

Quando aconteceu o fato que será abordado nesse texto (entre os anos de 1920 e 1930), essa rua tinha um nome diferente: ela era chamada de Travessa 4 de Fevereiro. De acordo com o relato do jornalista Carlos Braga Mueller ao blog “Beto Adalberto Day”, à época supracitada um suposto fantasma perambulava por essa rua usando trajes escuros durante as madrugadas. Quando surgiu o burburinho na cidade, alguns acreditavam que aquilo também poderia ser apenas um ladrão ou até um lobisomem. Mas a hipótese fantasmagórica foi a que ganhou mais força. Por esse motivo, a rua passou a ser chamada informalmente de “Gespenster Strasse” entre os imigrantes alemães da região. Traduzido do alemão, esse termo significa literalmente “Rua do Fantasma”.

 



 

✞Quem seria o fantasma?✞

 

Intrigado com aquele ser que assombrava a Travessa 4 de Fevereiro, populares decidiram ficar à espreita para tentar descobrir sua real identidade. Com a tocaia armada, algumas testemunhas conseguiram flagrar o “fantasma”. Depois disso, surgiu o boato que ele era um sacerdote da Matriz de São Paulo Apóstolo ou alguém da alta sociedade de Blumenau. Ele aproveitava as altas horas da madrugada para sair às ruas para visitar uma pessoa amada. Para não causar alvoroço e manter o sigilo, ele agia quando a escuridão caía sobre Blumenau. Com todos já estavam recolhidos em suas casas, ele podia transitar pelas desertas ruas sem ser visto. Para esconder ainda mais sua identidade, ele usava um capuz para que eventuais transeuntes não enxergasse seu rosto. Segundo alguns, aquela veste nada mais era que a túnica marrom usada por padres franciscanos, fomentando ainda mais a hipótese de que o fantasma era parte do clero da cidade. Um fato que fundamentava ainda mais essa teoria é que o “fantasma” sempre seguia para o mesmo destino final: uma casa localizada na Travessa 4 de Fevereiro.

 

Dizem que os que conseguiram flagrar o “fantasma” não externaram sua identidade ao certo, já que se tratava de uma pessoa muito influente na região à época. Temendo algum tipo de retaliação, nem mesmo um nome se tornou algo de conhecimento geral.


 

 

✞Referências✞

 

A Boina à https://cutt.ly/BfcnIEe

Beto Adalberto Day à https://cutt.ly/afcnySW

Nosso Tal à https://cutt.ly/kflsctU

O Blumenauense à https://cutt.ly/RfjYNpV

 

 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

DEMÔNIO DE CATULÉ – O delírio de uma seita religiosa!

 

Gustavo Valente

 

✞A comunidade de Catulé✞

 

O caso do “Demônio de Catulé” foi uma tragédia acontecida em Catulé, na Semana Santa de 1955, no qual seguidores da Igreja Adventista da Promessa mataram quatro crianças acusadas de estarem possuídas pelo demônio. Tal acontecimento foi amplamente abordado nos jornais da época:

 

 “Sangrenta Manifestação de Fanatismo no Interior de Minas” - Folha da Manhã

 

“Cenas Dantescas no Interior de Minas: Fanáticos da Seita Adventistas da Promessa Sacrificaram Barbaramente Quatro Crianças” - Folha da Noite

 

 “4 crianças massacradas por fanáticos em Minas Gerais” - Correio Paulistano

 

 “Os Fanáticos de Malacacheta queimaram na fogueira, com cães e gatos, o corpo de uma das crianças massacradas” – Folha da Tarde

 

 “Inteiramente transformada a vida da pequena cidade de Malacacheta” – O Estado de São Paulo

 

“Judas humanos e animais queimados em Malacacheta – Mataram as crianças para castigar o demônio que estava encarnado em seu corpo” – Folha da Noite

 

O texto a seguir retrata um resumo de todos os acontecimentos que levaram a esse desfecho. O crime ocorreu em uma fazenda chamada São João da Mata (também conhecida como Fazenda Itatiaia), situada na zona rural a 21 km do município de Malacacheta - Minas Gerais. Na fazenda existia uma clareira conhecida como Catulé, onde cerca de 10 famílias fixaram moradia em 1952 e praticavam a agropecuária de subsistência e plantio de algodão. A maioria desses moradores mantinham vínculos de parentesco e amizade entre elas, enquanto alguns eram “externos”, vindos principalmente de Presidente Prudente - São Paulo.  Os habitantes de Catulé eram em sua maioria negros, analfabetos e sem base familiar. Metade deles haviam perdido o pai com menos de 10 anos de idade. Estima-se que a população era de 44 indivíduos.

 



 

✞A seita religiosa ✞

 

Dois dos moradores de Catulé, conhecidos como Onofre do S. e Joaquim da C. eram seguidores da religião “Adventismo da Promessa” e começaram um trabalho missionário na região para converter os demais moradores da comunidade. Logo se tornaram líderes religiosos bastante influentes. Onofre era o único de Catulé que sabia ler e usava dessa habilidade para explorar textos bíblicos junto ao grupo. Joaquim por sua vez o ajudava na interpretação das passagens bíblicas.

 

O grupo religioso cada vez mais ganhava destaque na região. Então em outubro de 1954, dois pastores da Igreja Adventista da Promessa se reuniram com Joaquim e Onofre para orientar sobre as práticas religiosas realizadas em Catulé. Após essa visita, os dois pregadores foram qualificados pela igreja a realizar cerimônias de batismo das águas e a Santa Ceia. Em uma edição do jornal oficial da igreja “O Restaurador – Mensário Doutrinário Informativo”, existem relatos da visita dos pastores àquela região. No artigo os pastores destacaram a dificuldade de chegar até aquela afastada região e a alegria com a qual eles foram recebidos. De acordo com o jornal, o número de praticantes da religião em Catulé era de 40, sem contar as crianças. Após relatar detalhes do encontro e dos cultos feitos com o grupo, a matéria é finalizada com o anúncio de que a igreja seria representada naquele local pelo “irmão Onofre”, que seria responsável por construir uma casa de oração e coletar o dízimo dos praticantes. Depois disso, a igreja mandou um representante para se fixar naquele local, chamado Geraldo Justiniano. Assim ele poderia orientar e dirigir mais de perto todas as práticas realizadas pela igreja.

 

 

✞Doutrinas da seita✞

 

Os preceitos pregados por eles eram basicamente os mesmos estabelecidos por igrejas evangélicas: seguir os dez mandamentos, levar uma vida justa, proibição de fumar e beber, não participar de bailes ou festas, não cantar músicas profanas, viver honestamente e ter uma prática religiosa ativa (eles sempre se reuniam as quartas, sextas, sábados e domingos). Além disso, era vedado aos praticantes o consumo de carne de porco. Algo bastante marcante em Catulé era a severidade da moral sexual entre os membros.

 

Em dado momento, os praticantes decidiram que deveriam mudar seus nomes. Por exemplo, Onofre queria ser tradado como “Eucrides” e Joaquim escolheu “Elias” (posteriormente Joaquim disse que deveriam si dirigirem a ele como “Jesus”).

 

Por muito tempo o grupo seguiu sua prática religiosa e a vida trabalhadora e honesta. Mas esse ritmo seria quebrado quando a presença de Satanás no grupo foi revelada.

 

 

✞A revelação de um demônio✞

 

A harmonia da Catulé começou a ficar instável quando Onofre e Joaquim tiveram alguns problemas com seu vizinho, chamado Manuel. Apesar de participar da seita, Manuel não via com bons olhos Onofre e Joaquim tentavam regular seu comportamento e sua vida privada (como por exemplo, até mesmo ditar como ele deveria criar sua filha), uma vez que a diferença entre as idades deles eram bastante considerável: Onofre e Joaquim tinham 26 anos e Manuel 64. Manuel não estava aceitando bem o fato de outra pessoa “dar as cartas” em Catulé. Ele era uma espécie de líder local e o elo de ligação entre os moradores de Catulé com o dono da fazenda, antes da chegada de Onofre e Joaquim. Eles chegaram até mesmo a desentender por pedaços de terras em que cada um realizava seus cultivos. Em nome da religião, eles chegaram a fazer as pazes, mas sem que essas desculpas tenham nascido de uma vontade sincera.

 

Mas como o diabo surgiu na história? Depois desses acontecimentos, Manuel estava ajudando seu genro Geraldo no trabalho da roça, quando ele comentou sobre seu descontentamento contra os líderes da seita. Foi então que Geraldo, já com a mente deturpada pela doutrina religiosa imposta, começou acusar seu sogro de estar possuído por Satanás. Isso rapidamente se espalhou entre a comunidade e a relação entre ele e os líderes religiosos novamente estremeceu. Depois desses acontecimentos, Manuel se encontrou com Joaquim em um dos cultos e o pastor o tratou com certa violência física, ao sacudi-lo numa tentativa de tirar o demônio de seu corpo. Nenhum fiel interveio nesse comportamento, pois acreditavam que tudo aquilo era necessário para “expulsar Satanás”. O que começou como uma espécie de perseguição a Manuel foi cada vez mais tomando corpo de uma histeria coletiva.

 

 

✞A ascensão à Cidade Celeste de Canaã✞

 

Joaquim sempre pregava que o grupo deveria buscar uma ascensão à Cidade Celeste de Canaã como forma de atingir a graça máxima. Para isso, ele deveria eliminar todo tipo de impureza que pudesse haver em Catulé. Só assim eles seriam capazes de atingir tal objetivo. Com essa doutrinação em mente, os membros da comunidade começaram a ver vestígios de “Satanás” e de impureza em tudo, desde casas, vestimentas (o que posteriormente fez com que todos os membros vivessem nus em Catulé) e até mesmo em um pedaço de rapadura. Não demorou muito para que as impurezas também fossem vistas nos membros da comunidade, principalmente em mulheres e crianças.  No caso de crianças, essas eram vistas como alvos porque o batismo dos adventistas da Promessa era tardio, aos 16 anos, portanto eles seriam mais vulneráveis às possessões.

 

Em certa ocasião, Joaquim imaginou que Maria dos Anjos (uma menina órfã de 15 anos) estava com Satanás no corpo e começou a agredi-la. No meio da ação, um pintinho saiu debaixo da cama e isso for considerado a representação do demônio saindo do corpo dela. Maria dos Anjos foi um dos membros da comunidade mais perseguidos. Em certa ocasião, Joaquim chegou até mesmo a mordê-la. Com tantas agressões surgiram alguns ‘caroços’ no pescoço da garota, em virtude das lesões. Entretanto, isso também foi usado como justificativa de possessão demoníaca e ela apanhou ainda mais. Em uma posterior seção de agressão contra Maria dos Anjos, ela teria insinuado que Joaquim tinha abusado sexualmente dela, o que era algo totalmente proibido pela doutrinação religiosa pregada pelo próprio. O pastor não negou e justificou seu ato pela influência de Satanás. Talvez esse seja o principal motivo pelo qual Maria dos Anjos era um alvo frequente de Joaquim.

 

Além de Maria dos Anjos, outras meninas de Catulé também foram vítimas das agressões de Joaquim, como Josefina, Eva (acusada de estar possuída por um demônio que estava em um pedaço de rapadura) e Ataíde (acusa de possessão por estar acinzentada). As agressões não eram contestadas nem mesmo pelos familiares, que acreditavam que todas as atitudes de Joaquim se justificavam pelo fato de expulsar Satanás da comunidade.

 

Durante um culto, um fiel profetizou que o demônio tinha se apossado de um gato, e o grupo partiu em caça do animal. Durante a perseguição, o animal adentrou uma casa e derrubou uma lata de querosene. Isso fez com que uma menininha que morava nessa casa, Nelcina de 5 anos, acordar e se espreguiçar na cama. Ao ver aquilo, Joaquim começou a imaginar que Satanás estava começando a se apossar do corpo de Nelcina e as agressões voltaram-se todas para ela. De acordo com alguns relatos, João chegou a “pegar a menina pelos pés e bater com a cabeça dela no chão”. A tentativa de expurgar o demônio de Nelcina terminou com a morte da menina. Mas para Joaquim, o que tinha causado aquele trágico desfecho não foram suas agressões, mas sim o próprio demônio. Alguns animais que se aproximaram do corpo da garota (três cachorros e dois gatos) também foram mortos pelos fanáticos. O corpo de Nelcina foi queimado e todos voltaram para suas casas, como se nada tivesse acontecido.

 

O pai de Nelcina, Manuel M. (que não é o mesmo Manuel, ex-líder da comunidade), nunca se recuperou dessa perda e buscou confortar seus sentimentos na bebida. Ao vê-lo embriagado, Joaquim começou a agredi-lo, justificando que aquilo era influencia demoníaca e que era o culpado pela filha ter sido atormentada por Satanás. Ananias, o filho de um ano de Manuel M., também foi alvo das agressões.

 

Outra menina a sofrer agressões do grupo religioso foi Durvalina, de 7 anos. A pequena chegou até mesmo recitar trechos da Bíblia para mostrar que não estava possuída, mas todos disseram que aquilo era Satanás tentando enganá-los. Nesse ponto, não só Joaquim iniciava as agressões, mas é relatado que outros membros da seita, como Artuliana e Conceição, eram bastante fanáticos e também apontavam o dedo para acusar algum membro de possessão demoníaca. Artuliana chegou a agredir André, 4 anos, só cessando as agressões no momento em que uma folha de arvoredo caiu sobre o menino e ela afirmou que aquilo era uma mensagem de Deus que todos seriam salvos.

 

Após ser agredido, Manuel M. foi mantido preso por um tempo na casa de um membro chamado Zé de Lara para certificar que o demônio não estava mais nele. Depois que foi solto, Manuel M. fugiu de Catulé e foi até Malacacheta comunicar à polícia as atrocidades que estavam acontecendo. Entretanto, as autoridades não pareciam ter familiaridade ou confiança naquele relato, e essa queixa foi totalmente negligenciada. O dono da fazenda também foi comunicado de tudo que estava acontecendo, mas também ignorou a situação.

 

Depois disso, as agressões passaram a ser uma ferramenta não apenas para expurgar o demônio do corpo de algum fiel, mas sim para purificar o pecado dos membros da igreja. Para conseguir o perdão de Deus e, consequentemente conseguir ascender aos céus e à Cidade Celeste de Canaã, os fieis passaram por algumas seções de agressões como rituais recorrentes das reuniões.

 

Depois disso Joaquim começou a afirmar que ele era o próprio Jesus (e assim ele deveria ser chamado) e que sua saliva era milagrosa. A partir daí, a saliva dele era usada para tratar todas as moléstias que acometiam a comunidade, desde sensações de cansaços até picadas de insetos. Mesmo assim, as agressões não paravam. Em certa ocasião, Joaquim tirou uma criança do colo da mãe, chamada Maria, e a atirou violentamente contra o chão.

 

Além disso, Joaquim começou a ordenar que alguns bens pessoais (incluindo as casas e roupas) de alguns membros fossem queimadas para expulsar os demônios presentes nelas. Se não fosse o bastante, ele também estabeleceu que todos deveriam ficar nus sem sentir o menor pudor, uma vez que agora eles estavam no “Jardim do Éden”. Eles passaram a tomar banhos todos juntos como forma de purificar os pecados do grupo. A bíblia passou a ser mostrada para os animais, e àqueles que mostrassem o menor sinal de medo, eram mortos a pauladas.  

 

 

✞As agressões se agravam e resultam em mais morte✞

 

As agressões haviam se tornado uma coisa normal no grupo, mas a morte de Nelcina ainda era uma fatalidade. Mas a partir de certo ponto, a vida começou a ficar banalizada na comunidade. Enquanto jantava na casa de um fiel chamado Geraldo R., Joaquim ouviu Pedro, o filho do anfitrião, chorando. Joaquim afirmou que aquilo era um sintoma da possessão pelo diabo e ordenou que Geraldo R. pisasse em seu filho. Ele teve que repetir isso até seu filho morrer, só então Joaquim afirmou que o demônio havia saído dele.

 

Logo depois desse fato, Artuliana afirmou que o demônio não havia ido embora, mas sim entrado no corpo do filho de Maria (o mesmo que Joaquim tinha arremessado contra o chão anteriormente). O desfecho dessa criança também foi trágico: Joaquim a estrangulou até a morte.

 

Na sequência, Joaquim observou que outro filho de Geraldo R. estava com os olhos avermelhados (talvez chorando pela morte do irmão). Novamente Joaquim julgou aquilo como um sintoma da possessão por Satanás e matou o jovem a golpes de machado.

 

 

✞A polícia decide intervir✞

 

Por muito tempo a polícia negligenciou algumas acusações sobre a seita que chegavam até eles. Mas pela grande recorrência de reclamações dessas naturezas, alguns policiais decidiram ir até Catulé para verificar. Quando chegaram ao local, todos os membros da comunidade estavam se banhando juntos, nus e aparentemente apresentando um delírio coletivo. Ao ver a chegada dos policiais, todos começaram a se esconder, exceto Joaquim e Onofre, que foram de encontro aos guardas totalmente nus e mostrando agressividade. Os guardas dispararam contra eles e Onofre foi fatalmente ferido, enquanto Joaquim conseguiu sobreviver por ora apesar de ter sido alvejado. A esposa de Joaquim tentou tirar a arma dos policiais, mas eles a acertaram com o cabo da espingarda. Agonizando, Joaquim pediu para morrer com a palavra de Deus na boca. Então alguns membros da comunidade arrancaram páginas da bíblia e colocaram dentro da boca de Joaquim e também do cadáver de Onofre. Após engolir as páginas, finalmente Joaquim morreu.

 

Os guardas passaram a noite toda em Catulé. Na manhã seguinte chegaram reforços e todo o grupo foi guiado até a cadeia de Malacacheta.

 

Os residentes de Catulé foram presos e submetidos à análise psiquiátrica. De acordo com o promotor do caso “os crimes por eles praticados constituem indícios de anormalidade mental”. Em 17 de maio do 1955 o inquérito policial foi concluído. O policial Reinaldo P. S., autor dos disparos que vitimaram os líderes religiosos, foi absolvido pelos jurados, favoráveis à tese de legítima defesa. Os moradores de Catulé foram liberados por falta de provas, e a culpa caiu inteira sobre os falecidos Onofre e Joaquim. Um dos membros da seita, João B. C. ficou preso até 1970 no Manicômio Judiciário, pois no exame psiquiátrico foi constatado que ele tinha uma personalidade psicopata.

 

 

✞Dramaturgias✞

 

O massacre de Catulé foi adaptado para uma peça de teatro de Jorge Andrade, intitulada de “Vereda da Salvação” (1965). Esse roteiro também serviu como inspiração para uma versão cinematográfica de mesmo nome, produzida por Anselmo Duarte em 1965.

 



 ✞Conclusão✞

 

Apesar de muitos culparem a doutrinação da igreja “Adventismo da Promessa” pelo incidente, é importante ressaltar um ponto. Essa igreja realmente admite a possibilidade de possessões demoníacas, entretanto nenhum ritual relacionado a exorcismos pregados pela crença envolvem as práticas agressivas observadas em Catulé.

 

Para detalhes adicionais e mais esmiuçados, sugiro que acessem o artigo “A aparição do demônio no Catulé” de Carlos Castaldi, no qual o autor aborda em mais de 50 páginas todo o contexto envolvido nesse caso.

 

 

✞Referências✞

A aparição do demônio no Catulé à https://cutt.ly/Af3LwHX  

Iconografia da História à https://cutt.ly/AgpPx1p

O demônio e o messias: notas sobre o surto sociorreligioso do Catulé à https://cutt.ly/Sgrt3cZ

 

 

 

 

 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

A CASA DAS 365 JANELAS – A assombração que busca seus pertences!

 

Gustavo Valente

 

✞As garrafas de ouro✞

 

Para abordarmos a lenda da “Casa das 365 Janelas” antes temos que falar um pouco sobre outra lenda que se relaciona a elas. A lenda das garrafas de ouro! Tudo se iniciou no município de Pirenópolis, Goiás. À época, 1772, aquele local era chamado de Meya Ponte (ou Meia Ponte). Um dos primeiros moradores de Meya Ponte foram Luciano Nunes Teixeira e seu genro, Antônio Rodrigues Frota, que chegaram naquela região pelo Rio das Almas e logo começaram a minerar ouro daquele rio.

 

Na época, a Coroa portuguesa tributava o ouro extraído com o imposto chamado “Quinto”. De todo ouro obtido, um quinto do montante (20%) deveria ser tributado. Para burlar o pagamento desse imposto, Antônio Frota teria enchido garrafas com o ouro que extraia e as enterravam em suas terras. Dizem os escravos eram ameaçados de terem a língua cortada e os olhos perfurados caso alguém descobrisse algo sobre as garrafas.

 

Dessa forma, os dois homens enriqueceram e construíram várias edificações em Meya Ponte, como a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo e um grande castelo pessoal, chamado de “Castelo do Frota”. Na época diziam na região que “era mais fácil o rio das Almas voltar e subir a serra, do que o ouro daquela família acabar”. A ostentação era tamanha que a mulher e filhas de Antônio esbanjavam roupas e adornos, e até mesmo colocavam ouro em pós em seus cabelos.

 

O tempo passou e a família viveu no luxo até que Antônio e a esposa morreram. As filhas continuaram desfrutando do ouro até que juízes lhe tomaram tudo, e elas passaram a viver miseravelmente. A lenda das garrafas de ouro teria terminado nesse ponto, mas a construção da Casa das 365 Janelas reacendeu esse mito na região.




 

 

✞O Palacete do Comendador✞

 

Em meados do século XIX, o comendador de Meya Ponte, Joaquim Alves de Oliveira, era um dos homens mais influentes da região. Joaquim era proprietário de um dos maiores engenhos de cana-de-açúcar do Brasil, com cerca de 200 escravos e uma tropa de 300 muares. Ele também teve grande importância na exportação de algodão para a Inglaterra e fundou o primeiro jornal da região Centro-Oeste, o ‘Matutina Meiapontense’. 

 

O poder que o comendador tinha na região era tamanho que ele ordenou que fosse construído um casarão com 365 janelas. Cada uma das janelas representava um dia do ano. O local escolhido para reerguer esse recinto foi um terreno outrora utilizado para a mineração pela família Frota. Alguns acreditavam que naquelas terras ainda poderiam ser encontradas algumas lendárias garrafas cheias de ouro enterradas.

 

O casarão, conhecido como o “Palacete do Comendador”, se localizava bem no centro de Meya Ponte, onde atualmente se encontra o Museu da Família Pompeu. Era uma construção bastante robusta em forma de “H”, que chegava a preencher uma área de aproximadamente 30 mil metros quadrados. Ele era dividido em dois pavimentos de estilo arquitetônico colonial, com as paredes de adobe (um tipo de tijolo) e janelas de madeira. Tinha alicerce de pedra, onde se encontravam baldrames, vigas e esteios de aroeira. Muitos dos materiais utilizados nessa construção foram oriundos do Castelo do Frota, fato que fomentou ainda mais o boato que talvez as garrafas de ouro agora estivessem sob posse do comendador. Além disso, não foram poupados gastos para levantar a edificação. Empregaram-se madeiras finas, acabamento de ouro e lâmpadas de cristais puríssimos em sua construção.

 

O pavimento inferior era composto por amplos salões de recepção e de reuniões, além de escritórios, cozinhas e áreas de serviços. Já o salão para baile, os cômodos para hóspedes e a residência particular do comendador se localizavam no pavimento superior.

 



 

✞O fim do casarão e o começo da assombração✞

 

O tempo passou e o comendador morreu, sem deixar herdeiros. O casarão então ficou abandonado e se tornou alvo de saqueadores, que praticamente demoliram o local a procura de objetos valiosos (como as famosas garrafas de ouro). Além disso, muitos invasores roubaram até mesmo peças de madeira, esteios e janelas para utiliza-las em outras construções. Dizem que várias casas nas adjacências da Rua do Rosário e Rua Aurora foram levantadas com esses materiais. Depois desse fato, alguns populares afirmaram que o fantasma do comendador assombra essas ruas em buscas de seus pertences.

 

Apesar de não existir registros históricos que comprovem que o casarão realmente existiu, vários relatos de viajantes da época mencionam o local. Populares também afirmaram que no local era possível ver as ruínas dos alicerces depois de sua destruição. Uma maquete representando o casarão está localizada nos jardins do hotel “Quinta Santa Bárbara”.

 



 

✞Referências✞

Agita Pirenópolis à https://cutt.ly/pfgFeyD

Mensagens com Amor à https://cutt.ly/0ff7NzU

Pirenópolis à https://cutt.ly/GfhTklR

Pirenópolis Tur à https://cutt.ly/Mfd4J0A

Toda Matéria à https://cutt.ly/LfhTA7k